Médicos brasileiros fazem cirurgia inédita e salvam recém-nascida com problema congênito no coração

Viva! A pequena Ester Xavier venceu, depois de um grande susto e uma cirurgia inédita feita na recém-nascida por médicos brasileiros. Quando veio ao mundo, em janeiro, ela foi diagnosticada com um problema congênito grave no coração, chamado persistência do canal arterial (PCA). Isso foi logo nos primeiros dias de vida.
E os médicos do Hospital Brasiliense não desistiram, enfrentaram a situação, correram e realizaram a primeira cirurgia cardíaca à beira-leito em recém-nascido. “Quando o bebê nasce e dá o primeiro respiro, a circulação começa a se reorganizar. Esse canal arterial deveria se fechar naturalmente. No caso da Ester, simplesmente não fechou”, disse a médica Roberta Lengruber, coordenadora da UTI pediátrica e neonatal da unidade ao Correio Braziliense.
E felizmente deu tudo certo. 54 dias depois a menina teve alta e já está em casa com os irmãozinhos e com os pais. A mãe da Ester, Bárbara Xavier, 31 anos, disse que recebeu um milagre: “É indescritível. Quando eu olho as fotos do começo e vejo ela agora, parece um milagre. A gente sabia que esse dia ia chegar, mas parecia tão distante. E agora chegou”, disse emocionada.
Parecia tudo bem
No dia do nascimento, Ester parecia bem, só precisou passar por fototerapia porque tinha icterícia. E foi durante avaliação médica que apareceu o problema congênito no coração.
“Foi um baque. A gente não esperava. No dia seguinte, quando ela foi intubada, entendemos a gravidade da situação”, relembrou a mãe, Bárbara.
Os médicos identificaram uma persistência do canal arterial (PCA), condição em que a estrutura essencial durante a vida intrauterina não se fecha após o nascimento. Isso compromete a circulação sanguínea e sobrecarregando o coração.
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A decisão da cirurgia
Foi aí que a equipe decidiu fazer a cirurgia cardíaca à beira-leito, diretamente na UTI neonatal.
O procedimento, minimamente invasivo, é guiado por ultrassom para fechamento do canal arterial. Isso foi feito por meio de um pequeno acesso lateral, sem necessidade de abrir o tórax da bebê.
O procedimento foi realizado no 18 de fevereiro e a intervenção foi essencial para salvar a vida da Ester. “Ela não tinha condições de ser transportada. Qualquer deslocamento poderia colocar tudo a perder. Então, buscamos alternativas e conseguimos trazer uma equipe especializada para realizar o procedimento aqui mesmo”, contou a médica Roberta Lengruber.
Trabalho artesanal
Participaram da cirurgia, além do cirurgião cardíaco, anestesista, cardiologista pediátrica, intensivistas, enfermeiros e fisioterapeutas.
“É um trabalho extremamente delicado. Estamos falando de um bebê muito pequeno, com estruturas muito sensíveis. É quase como um trabalho artesanal. E, mesmo sendo menos invasivo, ainda envolve riscos importantes”, detalha a médica.
E deu certo: 24 horas após o procedimento, exames já indicavam melhora significativa na circulação e na função cardíaca. “Embora o resultado tenha sido imediato, a recuperação exigiu tempo e paciência”, contou a mãe.
52 dias internada
A bebê passou 52 dias internada.
“Eu fiquei aqui o tempo todo. Fui em casa só quatro vezes. É muito difícil, principalmente porque tenho outros dois filhos, que também precisam da gente. Mas, nessa fase, a prioridade era ela”, contou.
A alta só veio no último dia 26 de março. Ester deixou o hospital nos braços dos pais com profunda alegria. “A gente viveu um dia de cada vez. Era o nosso lema. A cada pequena melhora, a gente já comemorava. Foi um processo muito duro. A gente não deixou ela sozinha em nenhum momento. É nossa terceira filha, mas o amor só aumenta. Poderia ser o décimo filho que seria o mesmo cuidado”, disse o pai, Samuel Souza Leite, um policial militar de 33 anos.
“Entregamos tudo nas mãos de Deus. Pedimos intercessão, rezamos muito. Isso nos deu força para continuar”, completa o pai.
Vida nova
Após a cirurgia, a pequena passou por um processo cuidadoso de recuperação, que envolveu ganho de peso, fortalecimento e estabilização de todos os parâmetros clínicos. E agora, feizmente, já está em casa com a família.
Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 10 a cada mil crianças nascem com algum tipo de cardiopatia congênita no Brasil, aproximadamente 30 mil por ano, e, em média, 40% deles precisam passar por cirurgia ainda no primeiro ano de vida.
A realização de uma cirurgia cardíaca à beira-leito em um recém-nascido abre caminhos para que outros bebês em condições semelhantes possam ser tratados com mais segurança, sem a necessidade de deslocamentos arriscados.
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