Papa Leão XIV pede perdão pelo papel da Igreja na legitimação da escravidão

O papa Leão XIV fez nesta segunda-feira (25) um pedido público de perdão pelo papel histórico da Igreja Católica na legitimação da escravidão. Em sua primeira encíclica, chamada “Magnifica Humanitas” (“Humanidade Magnífica”), ele afirmou que esse passado representa uma “ferida na memória cristã”.
Outros papas já haviam pedido desculpas pela participação de cristãos no tráfico de pessoas escravizadas. Mas esta foi a primeira vez que um pontífice reconheceu diretamente que antigos líderes da Igreja autorizaram reis europeus a conquistar territórios e escravizar povos considerados “infiéis”.
O documento fala principalmente sobre os desafios da inteligência artificial, mas o papa aproveitou o texto para relacionar a escravidão do passado com formas atuais de exploração ligadas à tecnologia. Segundo ele, situações de trabalho precário ainda aparecem em áreas ligadas à produção de minerais usados em chips e equipamentos digitais.
Documento liga escravidão antiga a problemas atuais
Na encíclica, Leão XIV fala sobre os impactos sociais da inteligência artificial e alerta para o risco de novas formas de exploração humana em meio ao avanço tecnológico.
Ao tratar desse tema, o papa citou o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas como exemplo de um sistema que foi sustentado por interesses políticos, econômicos e também religiosos. Para ele, a sociedade precisa evitar que erros parecidos sejam repetidos em novos contextos.
No texto, o pontífice escreveu:
“É impossível não sentir profunda tristeza ao contemplar o imenso sofrimento e humilhação suportados por tantos, em contraste com sua dignidade incomensurável como pessoas infinitamente amadas pelo Senhor. Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.”
O pedido de desculpas acontece depois de anos de cobranças feitas por católicos negros, pesquisadores e movimentos sociais para que o Vaticano reconhecesse oficialmente a participação da própria Igreja no sistema escravista.
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Bulas papais ajudaram a justificar a escravidão
Embora o Vaticano afirme que a Igreja sempre defendeu a dignidade humana, alguns documentos emitidos por papas no século XV ajudaram a justificar conquistas coloniais e a escravização de povos não cristãos.
Um dos exemplos mais conhecidos é a bula “Dum Diversas”, publicada em 1452 pelo papa Nicolau V. O texto autorizava o rei de Portugal a conquistar territórios e subjugar povos considerados inimigos da fé cristã.
O documento também permitia reduzir essas populações à chamada “escravidão perpétua”. Poucos anos depois, outra bula, chamada “Romanus Pontifex”, reforçou essas permissões.
Esses textos serviram de base para a chamada Doutrina da Descoberta, usada durante séculos para justificar a ocupação de terras na África e nas Américas por potências europeias.
As autorizações dadas por Nicolau V depois foram mantidas por outros papas, entre eles Calisto III, Sisto IV e Leão X.
Em 2023, o Vaticano repudiou oficialmente a Doutrina da Descoberta. Mesmo assim, as bulas históricas nunca foram anuladas formalmente.
Igreja demorou séculos para condenar a prática
Na encíclica, Leão XIV lembrou que a primeira condenação direta da escravidão por um papa só aconteceu em 1888, com Leão XIII. Nessa época, vários países já tinham abolido a prática.
O atual pontífice também reconheceu que instituições ligadas à própria Igreja chegaram a possuir pessoas escravizadas.
Ao comentar esse passado, o papa escreveu:
“Já no início da era moderna, a Sé Apostólica de Roma, respondendo a pedidos de soberanos, interveio diversas vezes para regular e legitimar formas de subjugação e, em certos casos, inclusive a escravização de ‘infiéis’.”
Em outro trecho, ele afirmou que a demora em condenar a escravidão deixou marcas profundas na história da Igreja.
“Isso constitui uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar desvinculados.”
Segundo Leão XIV, a Igreja também precisa condenar com firmeza novas formas de exploração ligadas à economia digital e ao avanço tecnológico.
História familiar do papa chamou atenção
Primeiro papa nascido nos Estados Unidos, Leão XIV também teve a história familiar comentada após a divulgação de pesquisas genealógicas.
Segundo estudo publicado pelo historiador Henry Louis Gates Jr., 17 ancestrais americanos do pontífice aparecem em registros históricos identificados como negros, mulatos, crioulos ou pessoas livres de cor.
A árvore genealógica inclui tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos.
Papados anteriores já haviam tratado do tema em viagens oficiais. Em 1985, durante visita aos Camarões, o papa João Paulo II pediu perdão aos africanos pelo tráfico de pessoas escravizadas praticado por cristãos, mas sem citar diretamente a atuação dos papas.
Em 1992, durante visita à Ilha de Gorée, no Senegal, um dos principais pontos históricos do tráfico de escravizados na África Ocidental, João Paulo II chamou a escravidão de “tragédia de uma civilização que se dizia cristã”.
No mês passado, durante visita a Angola, Leão XIV esteve em uma região marcada historicamente pelo tráfico de africanos escravizados. Na ocasião, ele falou sobre o sofrimento vivido pelos angolanos ao longo dos séculos, mas ainda sem citar diretamente a participação histórica da Igreja na escravidão.

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