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Democratas derrotam Trump, conquistam Congresso e elegem mulheres, negros, gays e 5 brasileiros

Rinaldo de Oliveira
04 / 11 / 2026 às 08 : 18
Democratas retomam Câmara e Senado, vencem em estados republicanos e elegem mulheres, indígenas, negros, brasileiros e representantes LGBTQIA+ para cargos históricos nos EUA. Keisha Lance Bottoms (esq), Deb Haaland (centro) e o brasileiro Felipe Sousa-Lazaballet (dir). - Fotos: campanhas/ montagem SNB
Democratas retomam Câmara e Senado, vencem em estados republicanos e elegem mulheres, indígenas, negros, brasileiros e representantes LGBTQIA+ para cargos históricos nos EUA. Keisha Lance Bottoms (esq), Deb Haaland (centro) e o brasileiro Felipe Sousa-Lazaballet (dir). - Fotos: campanhas/ montagem SNB

Os democratas derrotam Donald Trump nas eleições dos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira (3). Eles conquistaram o controle da Câmara e do Senado. A vitória foi acompanhada por uma onda histórica de diversidade: os americanos elegeram a primeira mulher negra governadora de um estado, a primeira mulher indígena governadora, a primeira mulher indígena senadora, os dois primeiros homens assumidamente gays para o Senado e 5 brasileiros eleitos até agora. (fotos abaixo)

A derrota de Trump foi ainda maior porque os democratas venceram em estados tradicionalmente republicanos. No Texas, conquistaram o governo estadual e uma cadeira no Senado, encerrando décadas de domínio republicano nessas disputas. No Kansas, elegeram um senador democrata pela primeira vez desde a Grande Depressão, há quase um século. Também avançaram em Ohio, Iowa e nas duas Carolinas.

O resultado representa um duro golpe para o presidente americano, que havia pedido aos eleitores que votassem como se ele próprio estivesse na disputa. Pesquisa de boca de urna divulgada pela imprensa americana, mostra que 70% dos entrevistados querem que o Congresso imponha mais limites ao poder de Trump. As pessoas estão insatisfeitas com o aumento do custo de vida, com a guerra contra sangrenta contra o Irã e a condução deste governo. Tudo isso ajudou a impulsionar a vitória democrata.

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Brasileiro gay, filho de empregada doméstica, é eleito nos EUA

A vitória dos democratas teve o brasileiro Felipe Sousa Lazaballet, de 40 anos, entre os protagonistas. Ele nasceu em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, é filho de uma empregada doméstica e foi eleito deputado estadual na Flórida com 62,4% dos votos. Ele se tornou o primeiro brasileiro a conquistar uma cadeira no Legislativo estadual da Flórida e o primeiro imigrante assumidamente gay eleito para o cargo.

Felipe chegou aos Estados Unidos aos 14 anos, em 2001, e passou aproximadamente 15 anos sem documentação migratória regularizada. Aos 16, descobriu que poderia não conseguir entrar na universidade por causa da situação migratória. Mas encontrou uma instituição que aceitava estudantes nessa condição e conseguiu estudar relações internacionais no Miami Dade College.

Em 2010, participou de uma caminhada de 1.500 quilômetros, da Flórida até Washington, para defender a regularização de jovens imigrantes. Mais tarde, foi beneficiado pelo programa Daca, criado durante o governo Barack Obama, e passou a trabalhar em organizações de apoio a imigrantes e à comunidade LGBTQIA+. Conquistou a cidadania americana em 2021. “Minha história é o sonho americano. Cheguei aqui sem documentos, sem nada em meu nome, e agora terei o incrível privilégio de lutar pelos meus amigos e vizinhos como representante eleito”, comemorou nas redes sociais.

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Outros brasileiros também venceram (fotos abaixo)

Felipe não foi o único brasileiro eleito na terça-feira (3). Em Massachusetts, os democratas Priscila Sousa, Rita Mendes e Danillo Sena conquistaram a reeleição para a Câmara estadual.

Em Connecticut, Farley Santos também foi reeleito deputado estadual pelo Distrito 109, derrotando o republicano Ed Vachovetz. Será o terceiro mandato dele.

Assim, pelo menos cinco brasileiros conquistaram ou renovaram mandatos em assembleias legislativas americanas, segundo levantamento divulgado pela RFI nesta quarta-feira (4). Todos concorreram pelo Partido Democrata.

Mulheres, indígenas, negros e gays fazem história nas urnas

A eleição também marcou uma mudança importante na representação política dos Estados Unidos. Candidatos de grupos historicamente pouco representados chegaram a cargos que nunca haviam ocupado.

Isso mostra que o povo norte-americano abriu os olhos e se rebelou para dizer não a um governo cheio de soberba, maldade e retaliações a países que não seguem o que manda a cartilha de Donald Trump.

E os principais vencedores desta eleição nos EUA comprovam essa tendência de mudança na cabeça da população.

Entre os principais vencedores estão:

  • Keisha Lance Bottoms, na Geórgia: primeira mulher negra eleita governadora de um estado americano. Ex-prefeita de Atlanta, derrotou o republicano Rick Jackson e devolveu o governo estadual aos democratas.
  • Deb Haaland, no Novo México: primeira mulher indígena eleita governadora nos Estados Unidos. Integrante do povo Laguna Pueblo, já havia sido a primeira indígena a ocupar o cargo de secretária do Interior do país.
  • Peggy Flanagan, em Minnesota: primeira mulher indígena eleita senadora americana. Integrante do povo Ojibwe, derrotou a republicana Michele Tafoya.
  • Chris Pappas, em New Hampshire: primeiro homem assumidamente gay eleito para o Senado americano. O democrata já exercia mandato na Câmara desde 2019.
  • Gina Hinojosa, no Texas: primeira mulher latina eleita governadora do estado. Derrotou Greg Abbott, que estava no terceiro mandato.
  • Abdul El-Sayed, em Michigan: primeiro muçulmano eleito senador dos Estados Unidos. Filho de imigrante egípcio, é médico e ex-dirigente de saúde pública.
  • Amy Acton, em Ohio: primeira mulher eleita governadora do estado. Médica, ficou conhecida pelo trabalho na saúde pública durante a pandemia de Covid-19.
  • Xavier Becerra, na Califórnia: primeiro latino eleito governador do estado. O democrata já havia ocupado o cargo de secretário de Saúde no governo Joe Biden.

A diversidade também apareceu entre os republicanos. Na Flórida, Byron Donalds tornou-se o primeiro republicano negro eleito governador de um estado americano.

Derrota de Trump chega aos redutos republicanos

A dimensão da vitória democrata surpreendeu porque atingiu regiões onde Trump havia conseguido grande apoio nas eleições presidenciais de 2024.

Na Carolina do Sul, onde o republicano venceu por quase 18 pontos percentuais há dois anos, os democratas derrotaram o candidato ao Senado apoiado pelo presidente. No Texas, o democrata James Talarico venceu Ken Paxton, aliado de Trump, e conquistou uma cadeira que os republicanos dominavam havia décadas.

Os democratas também conquistaram mais de duas dezenas de cadeiras na Câmara dos Representantes que estavam com os republicanos, segundo a Associated Press. Em algumas dessas regiões, Trump havia vencido com vantagem expressiva na eleição presidencial anterior.

A mudança foi especialmente forte entre eleitores latinos. Condados próximos à fronteira do Texas com o México, que haviam aumentado o apoio aos republicanos em 2024, voltaram a votar majoritariamente nos democratas.

Depois do Brasil, reação contra a extrema direita ganha força

A derrota de Trump ocorreu apenas nove dias depois da reeleição do presidente Lula no Brasil. Em 25 de outubro, Lula derrotou de virada o candidato Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais, em uma disputa marcada pela mobilização de milhões de brasileiros nas ruas e nas urnas em defesa da democracia.

Os resultados nos dois países ocorreram em contextos diferentes, mas mostram que movimentos de direita radical podem ser derrotados nas urnas. No Brasil, a vitória garantiu a continuidade do governo Lula. Nos Estados Unidos, os democratas recuperaram o controle do Congresso e ampliaram os mecanismos de fiscalização sobre as decisões de Donald Trump.

A mobilização política brasileira também começou a inspirar iniciativas internacionais. Movimentos na França, Espanha e Argentina passaram a reproduzir estratégias digitais semelhantes às utilizadas pelo Exército do Lula, organizado pelo deputado federal André Janones durante a campanha presidencial.

Os canais estrangeiros buscam reunir apoiadores, divulgar informações e fortalecer a participação política. A experiência brasileira ganhou atenção pela capacidade de mobilizar milhões de pessoas por meio do WhatsApp.

Ainda não é possível afirmar que os resultados eleitorais brasileiros e americanos representem uma tendência mundial consolidada. Mas as duas eleições mostram a força da participação popular e a capacidade dos eleitores de dizer “não” a lideranças e projetos políticos da extrema direita que são retrocessos à evolução do humanismo e da proteção do planeta.

O que muda para Trump a partir de agora

Com a conquista da Câmara e do Senado, os democratas terão mais poder para impedir a aprovação de projetos do governo Trump, investigar possíveis irregularidades e exigir explicações de integrantes da administração americana.

O Senado também poderá rejeitar indicações presidenciais para cargos importantes, incluindo magistrados federais e autoridades do governo.

Trump continuará na Presidência, mas perderá a maioria parlamentar que facilitava a aprovação de propostas. A nova composição do Congresso tomará posse em janeiro de 2027 e permanecerá em atividade durante os dois últimos anos do mandato presidencial.

O presidente reconheceu a vitória dos adversários e parabenizou os democratas, mas negou que o resultado representasse uma rejeição pessoal. Durante a campanha, entretanto, havia pedido repetidamente aos eleitores que votassem como se ele próprio estivesse nas urnas.

A vitória também poderá abrir caminho para um marco histórico no comando da Câmara: o democrata Hakeem Jeffries, atual líder da oposição, é o favorito para se tornar o primeiro presidente negro da Casa. A escolha dependerá da votação dos deputados na abertura da nova legislatura.

Priscila Sousa, nascida em Ipatinga (MG), foi reeleita deputada estadual em Massachusetts. Chegou aos EUA aos 7 anos. - Foto: divulgação/ Campanha
Priscila Sousa, nascida em Ipatinga (MG), foi reeleita deputada estadual em Massachusetts. Chegou aos EUA aos 7 anos. – Foto: divulgação/ Campanha
Rita Mendes. nascida em Conselheiro Pena (MG), foi reeleita deputada estadual em Massachusetts. Chegou aos EUA aos 12 anos. - Foto: divulgação/ campanha
Rita Mendes. nascida em Conselheiro Pena (MG), foi reeleita deputada estadual em Massachusetts. Chegou aos EUA aos 12 anos. – Foto: divulgação/ campanha
O brasileiro Felipe Sousa-Lazaballet. - Foto: Divulgação / Campanha Felipe na Florida.
O brasileiro Felipe Sousa-Lazaballet. – Foto: Divulgação / Campanha Felipe na Florida.
Danillo Sena, nascido em Timbaúba, Pernambuco, e reeleito deputado estadual em Massachusetts nesta terça-feira (3). - Foto: Campanha/divulgação
Danillo Sena, nascido em Timbaúba, Pernambuco, e reeleito deputado estadual em Massachusetts nesta terça-feira (3). – Foto: Campanha/divulgação
Farley Santos, brasileiro reeleito deputado estadual em Connecticut. - Foto: divulgação/Campanha
Farley Santos, brasileiro reeleito deputado estadual em Connecticut. – Foto: divulgação/Campanha
Democratas retomam Câmara e Senado, vencem em estados republicanos e elegem mulheres, indígenas, negros, brasileiros e representantes LGBTQIA+ para cargos históricos nos EUA. - Fotos/Campanhas: Keisha Lance Bottoms (esq), Deb Haaland (centro) e o brasileiro Felipe Sousa-Lazaballet (dir).
Keisha Lance Bottoms (esq), Deb Haaland (centro) e o brasileiro Felipe Sousa-Lazaballet (dir). – Fotos: Campanhas/ montagem SNB
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