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Página para denunciar patrões abusados: 80 mil curtidas em 48 h

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23 / 07 / 2016 às 00 : 00
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Tem muito patrão abusado. E eles que se cuidem, porque agora já existe uma página para denunciá-los.

Ela foi criada por uma ex-empregada doméstica, que hoje é professora de história: a paulista Joyce Fernandes, de 31 anos.

Ela criou a hashtag #EuEmpregadaDoméstica e uma página no Facebook, com o mesmo nome, para denunciar o que chamou de “abusos dos patrões”. Em 48 horas a página bateu mais de 80 mil curtidas.

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“Joyce, você foi contratada para cozinhar para a minha família, e não para você. Por favor, traga marmita e um par de talheres e, se possível, coma antes de nós na mesa da cozinha; não é por nada; só para a gente manter a ordem da casa.”

Essa foi uma das frases que Joyce ouviu de uma ex-patroa em seu último trabalho como empregada doméstica, em 2009.

“Meu objetivo é provocar e dar voz a quem não tem voz. Esse tipo de tratamento desumano acontece entre quatro paredes e essas mulheres, a maioria negras, não têm com quem desabafar”, disse ela à BBC Brasil.

“Quero expor o que está sendo varrido debaixo do tapete. É preciso humanizar a relação entre patrões e empregados. Muitas vezes, naturalizamos agressões e opressões. Isso está errado”, acrescenta.

Foto: reprodução / Facebook
Foto: reprodução / Facebook

Entre as centenas de relatos que recebeu, Joyce diz ter ficado particularmente comovida com o de uma empregada doméstica de 76 anos que teve de subir vários andares de escada porque o elevador de serviço do prédio onde trabalhava havia quebrado. Mas o social estava funcionando.

“O filho dela me contou que a mãe trabalha há 30 anos com a mesma família. Eles moram em um prédio de alto luxo. O elevador de serviço quebrou e, impedida de usar o social, ela acabou tendo de subir vários andares de escada”, diz.

Segundo Joyce, a profissão de empregada doméstica deveria “acabar”, pois se trata de um “resquício da escravidão”.

“Mas enquanto isso não acontece, temos de lutar por um tratamento mais humano e igualitário. Não queremos ser da família. Também não queremos desrespeitar hierarquia. Queremos apenas um tratamento justo”, afirma.

“Infelizmente, para nós, mulheres negras, ser empregada doméstica é algo hereditário. Minha mãe, minha tia e minha avó foram empregadas domésticas. Não é possível disassociar isso da nossa história de escravidão.”

História

Cantora conhecida na cena de rap de Santos, onde vive, Joyce, que se apresenta com o nome artístico Preta-Rara, conta que a campanha ganhou força após ela postar um comentário em sua página no Facebook na última quarta.

“Venho fazendo terapia e, nesse processo de autoconhecimento, tive a ideia de compartilhar uma situação que havia sofrido na minha página no Facebook com a hashtag #EuEmpregadaDoméstica. Queria encorajar pessoas que talvez tivessem passado pela mesma coisa”, lembra.

Final feliz 

Mas nem todas as experiências como empregada doméstica foram negativas: Joyce diz lembrar-se do apoio que recebeu de uma ex-patroa.

“Um dia estava limpando a prateleira de livros e ela me emprestou um deles. Era ‘Olga’, do escritor Fernando Morais. Ela me incentivou a retomar os estudos e a fazer a faculdade de História que eu tanto queria”, diz.

Além de lecionar, Joyce criou um projeto de empoderamento de mulheres acima do peso, a Ocupação GGG (“fizemos um ensaio na praia de Santos para combater a gordofobia”). E também usa a música como instrumento de mudança social.

“Tenho um projeto pedagógico pelo qual levo o hip hop para as escolas falando sobre questões sociais dentro de uma abordagem mais pessoal”, afirma.

“Prefiro usar meu microfone para cantar ou recitar a fazer discursos. Acredito que consiga envolver mais pessoas”, conclui.

Com informações da BBC

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