Ex-lavrador se forma médico em MG: passou fome na roça

Foto: Reprodução EPTV / Tarcísio Silva
Foto: Reprodução EPTV / Tarcísio Silva

Mais um brasileiro de família humilde, de infância difícil, consegue realizar seu sonho.

José Reinaldo, morador de Monte Belo, Minas Gerais deixou de ser lavrador para se tornar médico.

Os pais têm pouco estudo e sempre trabalharam pesado para criar os oito filhos. A mãe, Dona Divina Rosa Lopes era cortadora de cana e lembra as dificuldades do filho.

“A gente ficava até com dó dele, porque passava até fome, tem dia que ele passava com uma banana”, conta a aposentada.

Na fase adulta as dificuldades permaneceram.

José Reinaldo foi aprovado no vestibular para Medicina na faculdade em Ribeirão Preto (SP), mas não tinha dinheiro para pagar as mensalidades.

Ele escreveu uma carta contando sua história e conseguiu uma bolsa integral.

Depois de 6 anos, José Reinaldo colou grau e finalmente se tornou médico. Motivo de orgulho para os pais.

“Só de ver ele em cima da mesa para assinar (a ata de colação) eu fiquei muito emocionada”, disse a mãe.

“Um pai pobre estudar um filho para médico não é fácil não”, disse o aposentado Pedro Lopes, pai de Reginaldo.”

Retribuir

Agora, o novo médico, que dá expediente no Hospital Bom Pastor, de Varginha (MG), pretende ajudar os amigos da terra e retribuir também tudo o que fizeram por ele.

“É uma alegria indescritível, eu entrando aqui hoje no Hospital Bom Pastor, não tenho nem palavras para mensurar o que estou sentindo neste momento”, disse o médico.

História

“Eu tinha uma vida rural né, trabalhei em Alfenas em uma fazenda, lá eu cuidava de vaca. Aí a gente pediu conta e veio para Monte Belo, aí eu arrumei um emprego em uma granja de suínos”, contou o médico ao G1.

Quando ele decidiu ser médico, ele tinha apenas o ensino fundamental.

Aos 20 anos, José Reinaldo deixou a roça para voltar a estudar.

O interesse pela medicina veio em um momento de sofrimento da irmã, Sueli. Ela ficou doente e José Reinaldo precisou acompanhá-la no hospital.

“Como era hospital escola, tinha uma rotina de corrida de leito, que eles falam. Os professores vão com os alunos do 5º, 6º ano e eles vão discutir o caso, e eu gostava muito disso. A cada dia mais que eu permanecia lá, foi nascendo o desejo de ser médico mesmo”, conta José Reinaldo.

Livro

Durante o tratamento da irmã, ele encontrou pelo caminho pessoas que o incentivaram a lutar pela profissão. Uma delas foi uma cardiologista.

“Como ele já era técnico de enfermagem, ele queria pagar a consulta da irmã e foi aí que eu disse pra ele para que não pagasse a consulta, que comprasse livros e estudasse, porque ele já tinha dito que tinha a intenção de ser médico”, conta a médica Ana Márcia de Melo.

Ela descobriu que os dois eram parentes distantes e também enfrentaram dificuldades para estudar. A cardiologista escreveu um livro e dedicou um capítulo para contar a história de José Reinaldo, que ela compara às flores de maio.

“As flores de maio florescem no inverno e não na primavera, elas fogem do convencional. E o Zé realmente é uma flor de maio, ele fugiu totalmente do convencional, porque é um menino que saiu da zona de risco, da marginalidade, da pobreza, de tudo que poderia ser o futuro dele e se tornou uma pessoa de bem”, completou a médica.

Com informações do G1