Designers de carros recriam obras de arte famosas em 3D para cegos

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O professor Flávio Oliveira sentindo obra em 3D - Foto: Andréa Fassina/SNB|Foto: Leo Lara/FCA|Foto: Léo Lara/FCA|Foto: Léo Lara/FCA||||Fotos: Léo Lara/FCA||||O professor Flávio Oliveira sentindo pela primeira vez a obra Foto: SNB|O professor Flávio Oliveira sentindo pela primeira vez a obra Foto: SNB|Celso Morassi
O professor Flávio Oliveira sentindo obra em 3D - Foto: Andréa Fassina/SNB|Foto: Leo Lara/FCA|Foto: Léo Lara/FCA|Foto: Léo Lara/FCA||||Fotos: Léo Lara/FCA||||O professor Flávio Oliveira sentindo pela primeira vez a obra Foto: SNB|O professor Flávio Oliveira sentindo pela primeira vez a obra Foto: SNB|Celso Morassi

Designers acostumados a projetar carros, encararam um desafio diferente e criativo em nome da inclusão. Eles recriaram obras de arte famosas em 3D para que pessoas com deficiência visual toquem e sintam as peças artísticas.

Entre elas estão a obra São Francisco de Assis e quatro flagelantes (1499 – Pré-Renascimento), de Pietro Perugino e Giovan Francesco Ciambella e a peça Conversas Sagradas: São Francisco de Assis, santo Antônio de Pádua e são Boaventura de Bagnoregio (séc. XVII – Barroco), de Andrea Lilli.

As peças em 3D traduzem quadros da exposição “São Francisco na Arte de Mestres Italianos”, na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

O desafio era representar os grandes mestres da pintura de movimentos artísticos que incluem o Pré-Renascimento, Renascimento e o Barroco e  trazer acessibilidade tátil para pessoas que não enxergam.

E ele conseguiram.

Sensação e Emoção

Deficientes visuais que visitaram as peças em 3D contaram ao SóNotíciaBoa como foi a sensação de tocar com precisão estas obras de arte.

“Possibilita uma compreensão visual. Poder conhecer uma linguagem visual, como é o das obras de artes, é também conhecer o repertório de imagens que é extremamente importante para a pessoa se situar no mundo,” explica o professor de história Flávio Oliveira (foto acima)

Ele ficou cego quando era criança, após um glaucoma.

“Quando se fala, auréola do Santo, o que é auréola? Como é essa auréola? Seria uma coisa muito abstrata se você não pudesse tocar. Aqui a gente pode tocar e perceber que acima da cabeça do santo, existe uma coisa circular pra que a gente possa compreender”, diz.

O radialista cego de nascença, Renato Junior, compreendeu o manto de São Francisco.

“Sentir a peça foi uma emoção. É importante conhecer mais sobre São Francisco. É uma oportunidade que a gente tá tendo de sentir a peça, de poder vivenciar a mesma coisa de uma pessoa que enxerga”, comemora.

A criação

As peças, feitas de resina, foram criadas pelo time do Design Center da Fiat Chrysler Automóveis.

Pra fazer isso, usaram a criatividade e elementos do que já faz parte da indústria automotiva.

Primeiro, transformaram o desenho virtualmente em 3D em camadas, e depois, as peças foram moldadas com uma outra máquina, chamada fresa.

“O dia-a-dia de fazer um carro é normal pra todos nós. Mas, quando eu comuniquei para a equipe que a gente teria que transformar  uma obra de arte numa peça 3D , vários deles queriam participar e ficaram muito satisfeitos. Todo mundo queria ver, por a mão”, disse ao SóNotíciaBoa Celso Morassi, supervisor de Design da FCA.

Essa não é primeira vez que a equipe encara esse desafio, que já projetou obras de arquitetura da cidade de Belo Horizonte como  o Mineirão, a Igreja da Pampulha e um prédio de Oscar Niemeyer, entre outros, Mas o desafio das obras de São Francisco era mais difícil, segundo ele, porque se tratava de um desenho sem volume.

Celso Morassi, supervisor de Design da FCA /Foto: Leo Lara
Celso Morassi, supervisor de Design da FCA /Foto: Leo Lara
Fotos: Léo Lara/FCA
Fotos: Leo Lara/FCA

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As obras

Com a perspectiva 3D, eles conseguiram projetar em profundidade e camadas a obra São Francisco de Assis e quatro flagelantes (1499 – Pré-Renascimento), de Pietro Perugino e Giovan Francesco Ciambella.

Na pintura há sempre uma figura central no topo – no caso, São Francisco – com imagens menores mais abaixo – nesta tela representada pelos devotos flagelantes –, formando um “triângulo”.

Foto: Léo Lara/FCA
Foto: Leo Lara/FCA

Outra obra traduzida foi  São Francisco recebe os estigmas (1570 – Renascimento), de Tiziano Vecellio.

Foto: Léo Lara/FCA
Foto: Leo Lara/FCA

O número de camadas desta peça é maior que as das outras. É possível perceber os diversos planos em que os personagens da tela de Tiziano – Cristo, São Francisco e o comendador da obra em oração – se encontram.

Outra tradução para 3D foi a peça Conversas Sagradas: São Francisco de Assis, santo Antônio de Pádua e são Boaventura de Bagnoregio (séc. XVII – Barroco), de Andrea Lilli.

Nela, a sombra e as imagens em planos mais distantes estão nas camadas inferiores.

Foto: Léo Lara/FCA
Foto: Leo Lara/FCA
Foto: Leo Lara/FCA
Foto: Leo Lara/FCA

A Exposição”

Clarita Gonzaga, coordenadora do Programa Educativo da Casa Fiat de Cultura, comemora o resultado da inclusão.

“É ver no olho da pessoa que você conseguiu dialogar com ela e abriu um horizonte e isso é muito bom.”

O objetivo foi alcançado, diz José Eduardo de Lima Pereira, presidente da Casa Fiat.

Além das obras em 3D, a exposição reúne 20 pinturas realizadas entre os séculos XV e XVIII de grandes mestres que vêm de 15 importantes museus de sete cidades italianas e uma de Nova York.

Ela está aberta ao público até o dia 21 de outubro.

A exposição apresenta as fases mais relevantes da representação de São Francisco por meio de obras que se integraram à cultura local de toda uma época e que ainda encontram espaço na cultura ocidental por seus valores artístico, histórico e simbólico.

O visitante vai poder apreciar Tiziano Vecellio, Perugino, Orazio Gentileschi, Guido Reni, Guercino e os Carracci que hoje fazem parte de importantes coleções italianas e estão pela primeira vez ao Brasil.

A curadoria é da especialista em história da arte italiana, Giovanni Morello e de Stefano Papetti.

Foto: Leo Lara
Foto: Leo Lara

História

A Casa Fiat existe há 12 anos em Belo Horizonte para transformar a realidade cultural da região, com a realização de exposições prestigiadas.

Já apresentou 40 exposições de consagrados artistas brasileiros e internacionais, além de mostras de artistas que despontam na cena contemporânea.

E não é só arte. Tem música, palestras e um Programa Educativo que promove interatividade com o público por meio do Ateliê Aberto, que é um espaço de experimentação artística livre.

A Casa fica no histórico Palácio dos Despachos e exibe em caráter permanente um painel de Portinari, Civilização Mineira, de 1959.

Mais de 2 milhões de pessoas já visitaram as exposições e 350 mil participaram das atividades educativas.

Veja um pouco da exposição:

Serviço
Exposição “São Francisco na Arte de Mestres Italianos”
Até o dia 21 de outubro
Casa Fiat de Cultura
Praça da Liberdade, 10, Funcionários – Belo Horizonte/MG

Por Andréa Fassina da redação do SóNotíciaBoa – viagem a Belo Horizonte a convite da Fiat.