Grupo contrata menores infratores há 10 anos: sigilo

Foto: Creative Commons
O Grupo Pão de Açúcar (GPA) está empregando e orientando menores infratores sem contar para ninguém quem eles são – nem mesmo para os seus próprios funcionários.
A iniciativa acontece há 1 década, muito discretamente e este ano, o programa Gente de Futuro ganha uma nova abordagem: além de formar esses jovens para o mercado de trabalho, a empresa dará suporte também às suas famílias.
Desde 2004, a rede faz uma parceria com a Fundação Casa para recrutar e contratar pessoas que cumprem, ou já cumpriram medidas socioeducativas, para atuarem nos supermercados Pão de Açúcar e Extra e na sua sede administrativa, em São Paulo.
Mas foi em 2009 que a prática tomou forma de projeto.
“Não se trata de cotas legais a serem cumpridas, como o acontece no Menor Aprendiz. É social mesmo”, diz Elisabete Fonseca, gerente de RH do grupo.
Requisitos
Para participar, os jovens com idade entre 17 e 21 anos precisam ser indicados pela instituição.
Depois, eles passam por um processo seletivo elaborado pela empresa.
O projeto tem duração de 12 meses e, a cada ano, são abertas de 20 a 30 vagas.
Para 2014, foram 70 candidatos pré-selecionados para 25 postos de trabalho abertos.
A seleção ainda está em curso e 10 deles já foram preenchidos.
A escolha, que deve terminar em julho, passa pela análise de uma consultoria e por uma entrevista com um gestor e leva em conta a vontade e o perfil do jovem. É depois de identificar o potencial dos candidatos que a varejista busca as vagas em lojas próximas à região onde eles moram – num processo inverso ao natural.
Preconceito
Depois de selecionados, os jovens são efetivados como qualquer outro funcionário do GPA.
O programa é sigiloso e só os gestores sabem quem são as pessoas que participam dele.
Para o restante da equipe, não há distinção para evitar qualquer possível preconceito.
As vagas
A maioria deles é contratada para atuar nas áreas de operação dos supermercados da rede e alguns (cerca de 20%) são destinados à sede administrativa da empresa.
“Muitos começam aprendendo um ofício como o de padeiro, ou açougueiro, e realmente constroem uma carreira nessas profissões”, conta Elisabete.
Treinamento
O único tratamento diferenciado que os integrantes do Gente de Futuro recebem é ter de participar de reuniões quinzenais que trazem treinamentos e palestras, organizados pela consultoria parceira.
Os encontros duram quatro horas e neles são tratados temas como o autoconhecimento, o diálogo, a relação com a família e o papel do jovem profissional na sociedade.
“São pessoas muito fortes, mas também muito machucadas e que, por isso, às vezes criam mecanismos de defesa”, justifica Elisabete sobre a necessidade desse tipo de orientação.
Gerenciamento
Os chefes que irão comandar funcionários do Gente de Futuro também são preparados especialmente para recebê-los.
Durante um dia, eles são treinados pela consultoria para “aprender a administrar as falhas dos jovens de maneira construtiva”, segundo explica Elisabete.
No decorrer do ano, os líderes também participam de pelo menos dois encontros com a equipe de RH da companhia e a consultoria para discutir o andamento do programa e discutir as dificuldades e oportunidades dos empregados que fazem parte dele.
Contratação
Passados os 12 meses, o funcionário do Gente de Futuro que estiver se dando bem no trabalho continua na companhia.
Na média, 50% deles permanecem no emprego depois desse período.
Elisabete conta que não há muitos registros de que o GPA precisou desligar os jovens.
“Só acontece em casos extremos. Mas alguns realmente desistem porque retornam à criminalidade”, afirma, sem falar em números.
Entre aqueles que não vão embora, uma média de 12% são promovidos.
“Quando eles ficam, o índice de engajamento é muito grande, porque nós os ajudamos a reconstruir a sua história”, diz a gerente.
Hoje, 10 funcionários que vieram do projeto ainda estão na companhia.
Deles, cinco já tem entre 5 a 9 anos de casa, sendo que um deles ocupa um cargo de média liderança.
“Tem também o caso de uma pessoa que nos deixou para ser sommelier em uma grande adega”, conta Elisabete.
Com informações da Exame e Planeta Sustentável

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