Professor de dança adota aluna que queria ter um pai

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Foto: reprodução / Agência RBS / Mateus Bruxel|
Foto: reprodução / Agência RBS / Mateus Bruxel|

Pai a gente não escolhe, mas Samara Medeiros escolheu o dela aos oito anos e conseguiu: o professor de dança, coreógrafo e bailarino Rubiélson Medeiros.

Depois da morte da mãe, ela e os irmãos passaram por diferentes lares. A segurança que ela procurava encontrou em Rubi, o professor do projeto social que funcionava do outro lado da rua.

O cara que mostrava que tudo iria dar certo, ensinava os passos de dança, a abraçava e perguntava se seguia indo à escola e se estava tudo bem.

De tanto pedir para ser filha do professor, ele um dia aceitou ser pai da estudante, que hoje tem 17 anos, mora em Canoas, no Rio Grande do sul e deu a Samara mais uma irmã.

“Um dia, pedi para falar com Rubi. Disse a ele que não tinha mais onde morar, que as pessoas onde eu vivia estavam reclamando de mim e que todas as possibilidades estavam esgotadas. Pela terceira vez, pedi que me adotasse. No outro dia, ele foi ao Conselho Tutelar e ficou responsável por mim. De lá para cá, minha vida mudou”, contou a jovem à Revista Donna.

Neste dia dos pais foi Rubi quem agradeceu na página dele no Facebook: “Obrigado Samy e América [a outra filha] por todos dias que vcs fazem da minha existência um estado de SER PAI !”.

Vida nova

Hoje além de amor, casa e família, Samara tem sonhos, perspectivas:

“Trabalho, estudo, tenho uma gata linda chamada Mel, estou começando a fazer meu passaporte, pretendo cursar Psicologia e continuar a dançar, sempre. Pois meu pai é a dança, e foi pela dança que hoje eu estou aqui”.

“Minha família biológica era formada pela minha mãe, que faleceu quando eu tinha cinco ou seis anos, não lembro bem. Somos quatro filhos: Janine, minha irmã mais velha com quem tenho muito contato, mãe de uma sobrinha que eu amo, o meu irmão de 16 anos que vive com nossa ex-madrasta, e um irmão que, logo que minha mãe morreu, foi levado por uma vizinha e, segundo informações do Conselho Tutelar, foi adotado. Nunca mais soubemos dele.

“Morei em tudo o que é lugar, passei fome, frio, fiquei fora da escola por muitos anos e teve momentos sobre os quais ainda nem consigo descrever. Enfrentei preconceitos, primeiro por ser pobre, segundo, negra, depois por não ter mãe. Meu pai biológico teve dificuldades, e chegamos a ser recolhidos pelos serviços sociais do Estado. Mesmo assim, meus dois irmãos e eu éramos e somos unidos. A infância difícil nos uniu”.

Foto: Mateus Bruxel, Agência RBS
Foto: Mateus Bruxel, Agência RBS

O encontro com o novo pai

Nasci em Sapucaia do Sul, mas acabamos morando no bairro Mathias Velho, em Canoas. E, em dezembro de 2007, abriu uma sala de dança em frente ao local onde morávamos, e alguém nos matriculou para a gente se ocupar – corríamos muito na rua (risos). Naquela sala de dança, conheci o coreógrafo Rubi”.

Nas primeiras vezes em que me abraçou, pedi para ele me adotar. Até hoje não tem explicação: eu o abracei, olhei nos olhos dele e disse “Me adota”. Ele, como nosso professor, adequava as falas e tentava driblar o meu pedido de adoção, explicando que eu tinha família, e que as coisas não são assim. Que aquilo era muito sério. Eu desisti”.

Um dia, depois da apresentação em um evento beneficente, pedi para falar com Rubi no camarim. Era tudo ou nada. Disse a ele que não tinha mais onde morar, que as pessoas onde eu vivia estavam reclamando de mim e que todas as possibilidades estavam esgotadas. Pela terceira vez, pedi que me adotasse.”

“Rubi havia recém chegado de uma turnê de dança pelos Estados Unidos, estava feliz.

“Se realmente tu não tens onde ficar e for de direito a minha responsabilidade por ti, digo ‘sim’.” No outro dia, ele foi ao Conselho Tutelar e ficou responsável por mim. De lá para cá, minha vida mudou.

“Ali encontrei cuidado, infraestrutura e amor. E regras: ele pegava e pega pesado na rotina escolar e, quando fiz 14 anos, preparou a mim e a América [a irmã] para fazer estágio, buscar bolsas de estudos e fazer trabalho voluntário.

Tem muita conversa, dança, regras e regras, mas também uma coisa que transborda na minha relação com meu pai: amor e compreensão. Eu sou negra, ele é gay, e minha irmã é transgênero – somos uma família”.

“Assumir a paternidade de adolescentes ainda é muito raro. Mas, mesmo assim, meu pai diz que não fomos questionados por não ser uma família tradicional.

Hoje, vivemos uma fase muito legal: estudar e trabalhar é o lema da casa. E ser feliz, aceitar que dói menos e levar a vida leve”

“Estou no meu segundo estágio pelo Centro de Integração Escola e Empresa, sou aprendiz no Colégio La Salle de Canoas, estou organizando meu passaporte para dançar com meu pai fora do Brasil, e estamos gravando um filme que aborda exatamente as questões entre eu, minha irmã e meu pai. Somos uma família formada pela dança”.

O Rubi sempre quis ser pai, e eu sempre soube que seria filha dele. Sabia que não poderia deixá-lo escapar. E assim hoje estamos eu, América e Rubi, meu pai”.

Com informações da RevistaDonna