Inglesa musa do Carnaval do Rio: troca aulas de inglês por aulas de samba

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Samantha Flores - Fotos: reprodução / Instagram
Samantha Flores - Fotos: reprodução / Instagram

Uma inglesa virou uma das musas do Carnaval do Rio depois que começou a dar aulas de inglês em troca de aulas de samba.

Este ano, já com muito samba no pé, Samantha Mortner-Flores, de 37 anos, subiu no salto alto, vestiu a coroa de plumas e incorporou Iemanjá, a rainha do mar, como destaque de chão da Império da Tijuca no sambódromo.

“Uma das minhas alunas era uma passista. Eu queria muito aprender a sambar, e ela queria aprender a dar aulas de samba em inglês para ensinar estrangeiros”, contou à BBC Brasil.

“Então fizemos uma troca. Ela me ensinou a sambar, mas só podíamos falar inglês. Funcionou para os dois lados.”

Este foi seu segundo ano como musa do abre-alas da Império, escola da Série A, a “segunda divisão” do carnaval carioca, que abriu os trabalhos no sambódromo na sexta-feira, antes do desfile das agremiações do Grupo Especial, no domingo e na segunda-feira.

Samantha abriu caminho, sozinha na avenida, para o primeiro carro da escola. (vídeo abaixo)

“Eu tenho muito respeito pelas rainhas e musas das escolas, são mulheres inacreditáveis. Mas se eu ficar me comparando com elas, vou entrar em parafuso. A única coisa que posso fazer é ser eu mesma, e não sou uma mulata voluptuosa.”

No começo, ela disse ter ficado um pouco chocada com o convite. E às vezes ainda tem medo de que alguém vire e lhe diga que é uma fraude.

“O jeito é encarar. Tem que chegar chegando”, resume em bom português – que achou mais difícil aprender do que o samba.

História

A inglesa Samantha Mortner-Flores era “uma boa menina judia do norte de Londres” e diretora de uma agência de relações públicas.

Ela veio pela primeira vez ao Rio em 2006 para fazer companhia a uma amiga designer de joias, que queria se familiarizar com o mercado de pedras brasileiras.

Em apenas um dia na cidade, decidiu que queria ficar. E em pouco tempo estava morando na Rocinha, dando aulas de inglês em uma ONG e aprendendo o significado da palavra escambo.

Quando resolveu ficar o Rio, Samantha começou a investir na compra, reforma e revenda de imóveis e viu que havia um mercado ali para estrangeiros, que ficavam perdidos nas leis e burocracia brasileira na hora de fazer negócios.

No meio tempo, ela se casou com um brasileiro e, ao se separar mais tarde, decidiu manter o sobrenome, Flores. Hoje vive da consultoria para compra de imóveis e mora em Ipanema.

Estreia na avenida

Mas logo foi “contaminada” pelo Carnaval – “sou um pouco obcecada” – e vem desfilando todos os anos desde 2011, quando foi “um grande pássaro amarelo” na União da Ilha.

Já passou também pela Mocidade e Beija-Flor, mas construiu a relação mais longeva com o Império da Tijuca.

A estrangeira conquistou o respeito da escola na qual já desfila há cinco anos, frequentadora assídua dos ensaios na quadra pé do Morro da Formiga, comunidade na Tijuca, zona norte do Rio.

“Acho que não tem nenhuma questão por eu ser estrangeira. Se você vai aos ensaios, se dedica, mostra que tem compromisso com a escola, eles te aceitam como uma brasileira”, diz Samantha.

Ela costuma ser chamada pelos integrantes da escola de “musa gringa”, “gringuinha”, “nossa inglesinha” e variações. As brincadeiras são comuns, mas sempre carinhosas, diz.

“Às vezes, quando sou apresentada para o pessoal da velha guarda, eles me olham com aquela cara de ‘o que essa inglesa está fazendo aqui no Morro da Formiga?’ Mas todo mundo na escola sempre me acolheu. Se há alguma dúvida, vem de mim, e não da escola. Às vezes temo não ser boa o suficiente para aquela posição, de decepcionar a escola, mas eles sempre me incentivam.”

Professora de Sabrina Sato

Sandro Carvalho, estilista responsável pelas musas do Império da Tijuca, diz que Samantha “samba mais do que muita brasileira” e se firmou na posição de primeira musa da escola pela dedicação aos ensaios e porque trabalha pesado.

Ela busca sempre se aprimorar mais em aulas com bambas como Dandara Oliveira, que dá aulas para Sabrina Sato e saiu ao lado da apresentadora na Vila Isabel neste ano, como princesa da bateria.

Como estrangeira, ela considera comovente ver a dedicação, criatividade e energia que as escolas depositam na preparação dos desfiles de cada ano – ainda mais neste, em que o Carnaval carioca sofreu com cortes de recursos da prefeitura e as agremiações tiveram que se desdobrar com orçamentos apertados.

“É incrível ver a comunidade se unir para esse evento. O Rio tem os seus problemas, mas a tradição e a cultura do samba une as pessoas, as enche de orgulho, e é incrível ver a criatividade e o amor com que as escolas preparam tudo ao longo de um ano inteiro, para ter uma hora para se apresentar. E depois aquela energia do público no desfile. Acho que não há nada parecido no mundo.”

Do português ao iorubá

Embora fale português fluente, Samantha se viu desafiada pelo samba da Império da Tijuca deste ano, que voltou à sua tradição de enredos afro com Olubajé – Um Banquete Para o Rei.

Inspirado em uma tradição iorubá, conta a história de Obaluaiê, que é rejeitado pela mãe, Nanã, e entregue à Iemanjá para ser criado nas águas salgadas do Reino de Olokun. Todos os orixás estão representados nas alas, e o refrão dá uma amostra da complexidade da letra, que contém vários termos iorubá: “Araloko, Araloko Pajuê / Ê Pajuê Ê Pajuê / Vem o Morro da Formiga, vem pra vencer”.

“Parece um teste para ver se conheço todos os orixás”, brinca a musa da escola.

Com tantas histórias e estrangeiros entrando em contato perguntando como fazer para desfilar, Samantha resolveu lançar uma agência para ciceroneá-los no sambódromo, batizada de Experience Carnival Rio, que inaugura neste ano em paralelo à atividade de musa, levando os primeiros clientes para desfilar em escolas como Mocidade e Salgueiro.

“A ideia é ajudar a criar uma conexão deles com as escolas, para que entendam e aprendam o samba e que possam se envolver e ter a experiência para valer”, diz.

“O Carnaval não é fácil para estrangeiros. Mas quero que eles possam ter a mesma experiência que eu tive da primeira vez, e entendam a força a o espírito comunitário que o Carnaval tem.”

Veja como ela tem samba no pé:

Com informações da BBC