Do fundo do poço, na Cracolândia, a empresária de doces

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Desirée Mendes - Foto: Gui Christ/BBC Brasil|
Desirée Mendes - Foto: Gui Christ/BBC Brasil|

Sim, é possível recuperar e acreditar em pessoas que chegaram ao fundo do poço. Uma nova prova é a história de superação a confeiteira Desirée Mendes, que agora volta à cracolândia, em São Paulo, para abrir seu próprio negócio.

Desirée usou crack durante 22 anos, 16 deles morando na cracolândia. Ela foi internada para tratamento 19 vezes e presa outras 11.

Ela foi salva na última prisão quando descobriu que o ex-companheiro, pai do filho que carregava na barriga, estava infectado com o vírus HIV. Desirée comprou R$ 100 em pedras de crack para fumá-las até morrer e não conseguiu porque foi para a cadeia.

Grávida, ela acabou condenada a seis anos de prisão por tráfico de drogas.

Na cela, ela decidiu abandonar o vício. “Estava chovendo muito, e eu grávida. Por trás das grades, olhei a lua como se ela fosse Deus, e falei que iria parar. Nunca mais fumei crack”.

Em 25 de julho de 2012, dois meses depois de seu filho Enzo nascer na prisão, Desirée foi solta para aguardar os recursos em liberdade. “Por milagre”, conta, ela e o menino não contraíram o vírus HIV.

Aí ela conseguiu um emprego e aprendeu a fazer doces.

A virada

Hoje, com 40 anos ela é uma confeiteira de sucesso: além de vender doces e bolos por encomenda, atua como arte-educadora no Recomeço, programa estadual de recuperação de dependentes de crack.

Todas as manhãs, ela retorna à cracolândia e dá aula de gastronomia para os usuários que quiserem participar – fazem bolos, tortas, doces.

A oficina funciona como uma porta de entrada para o tratamento. “É redução de danos. Quando o dependente está aqui comigo, na aula, ele não fuma crack”, explica.

Desirée anda como uma rainha pelo fluxo, como é conhecida a área de consumo e venda de crack na rua Helvétia, centro de São Paulo.

Usuários correm para abraçá-la, beijá-la, pedir conselhos. Para eles, ela é um exemplo, alguém que conseguiu sair do vício.

Essa atenção com os usuários, muitos deles pessoas com quem Desirée dividiu pedras, é o que parece construir o respeito que eles têm por ela.

Futuro

Nos próximos meses, ela vai abrir uma cafeteria, na alameda Glete, a poucos metros da unidade onde ajuda usuários.

Será seu primeiro negócio como empreendedora. Terá como sócia a empresária (e amiga) Jaqueline Alves.

“Está vendo meu braço? Só de eu falar nela, fico arrepiada. É como se a gente fosse almas gêmeas”, diz.

Elas se conheceram em um programa de uma emissora de TV evangélica, que levou Desirée para jantar em um restaurante no Anália Franco, bairro de classe média-alta na zona leste de São Paulo.

Esse restaurante era o Cereja Flor Café Bistrô, cuja proprietária é Jaqueline Alves, de 45 anos.

“Depois que acabou o programa, conversei com a Desirée e vi que ela era tudo o que eu precisava. Uma confeiteira com muita vontade de aprender e de trabalhar”, disse Jaqueline.

“Eu acredito nas pessoas, não tenho preconceito. Se você não der oportunidade, como a pessoa vai mudar?”, diz a dona do restaurante.

Desirée rapidamente se destacou na cozinha e passou a liderar a equipe de confeitaria do local. Inventou doces com Jaqueline, e o bistrô deslanchou: no fim de semana, a fila de espera da casa chega a três horas.

Doces inventados por Desirée -  Foto: Gui Christ/BBC Brasil
Doces inventados por Desirée – Foto: Gui Christ/BBC Brasil

As duas viraram amigas. “Ela foi muito importante para mim e para o bistrô”, lembra Jaqueline.

No fim do ano passado, Desirée pensou em dar outro passo na carreira – a terceira reviravolta em sua biografia.

Convidou Jaqueline para abrir um café no centro de São Paulo, na alameda Glete, a poucos metros da cracolândia. A amiga topou.

O local fica próximo a uma Porto Seguro, que tem mais de 10 mil funcionários atuando em dezenas de prédios no entorno – os trabalhadores costumam ser escoltados por seguranças quando andam pelas ruas do bairro.

São esses funcionários o foco do café de Desirée e Jaqueline. “A gente acha que pode dar certo, porque é uma região que não tem muitas opções. Nós vamos oferecer doces e um almoço de qualidade”, explica Desirée.

“Eu quero tantas coisas, minha vida ficou parada por 20 anos. Decidi mudar a chavinha na minha cabeça e parei com o vício. Eu sei que consigo qualquer coisa, sei que só depende de mim e da minha vontade”, diz.

Com informações da BBC