Instituto Butantan cria pomada contra picada letal de aranha

A pesquisadora Denise Tambourgi e a equipe do Instituto Butantan criaram uma pomada contra a picada da perigosa aranha-marron, conhecida como Loxosceles.
Para isso eles utilizaram como base um fármaco já conhecido, a tetraciclina.
A aranha é pequena – de 0,6 mm a 2 cm – mas pode causar um estrago considerável, picando cerca de 7 mil pessoas no Brasil todos os anos.
O veneno pode causar necrose da pele, falência renal e até a morte das vítimas – seis casos fatais foram registrados no país em 2016.
Além de lesão cutânea, a picada da Loxosceles também pode provocar, nos outros 20% das vítimas, efeitos sistêmicos, como hemólise, alteração e até destruição dos glóbulos vermelhos do sangue, agregação plaquetária que impede a circulação, inflamação e falência renal, que podem levar à morte.
A pomada
Para diminuir esses problemas, Denise desenvolveu uma pomada cujos efeitos curativos já foram comprovados em testes realizados em cultura celular e em animais de laboratório.
Ela foi desenvolvida à base de tetraciclina, uma substância conhecida e já usada como antibiótico.
“Utilizamos numa concentração abaixo da que seria microbicida, ou seja, menor do que a necessária para ser considerado antibiótico. Mas a empregamos em uma dosagem capaz de interferir na atividade da esfingomielinase D, proteína que é o componente principal do veneno da aranha e que está envolvida no processo de inflamação e de destruição do tecido (necrose) e outros efeitos”, explicou Denise.
Testes em humanos
O trabalho para decifrar os principais componentes da toxina da aranha-marrom começou em 1994.
Os primeiros testes, realizados em cultura de células de pele humana, mais especificamente queratinócitos e fibroblastos, e em animais, começaram a ser feitos em 2005 e se estenderam até agosto de 2018.
“Realizamos vários experimentos, aplicando o veneno da aranha-marrom nas culturas. Como esperávamos, as células morriam. Depois, as expomos à toxina e à tetraciclina, em várias dosagens, ao mesmo tempo. Constatamos, então, que o veneno não era mais capaz de matar as células”, contou.
Como a tetraciclina é uma droga já testada para várias infecções e, por isso, usada comercialmente, não é necessário passar pelas várias fases de ensaios exigidos pelos protocolos de pesquisa para a liberação de medicamentos.
Ela pode ser testada diretamente em humanos.
“Na verdade, estamos apenas dando uma nova aplicação a esta substância”, disse a pesquisadora.
Essa fase começou em outubro. Serão tratados no total 240 pacientes, 120 com a pomada e 120 com placebo, de 61 hospitais de Santa Catarina, estado onde ocorre o maior número de picadas e no qual Denise tem várias parcerias, inclusive com a Universidade Federal (UFSC), além de médicos, enfermeiros e profissionais da área de farmácia e de saúde. Até o momento, 20 pacientes já estão sendo tratados.
Se os resultados dos testes clínicos forem os esperados, a pomada poderá chegar às farmácias, ainda sem prazo definido.
Depois de aprovada nos ensaios, ela ainda precisa ser liberada para uso em uso em humanos e para comercialização pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária a Anvisa.
Com informações do Diário da Saúde
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