Manual da PM é reformulado e racismo ‘não será tolerado’

“O negro tem pressa porque é muito tempo sofrendo a mesma coisa. O racismo está enraizado nas pessoas historicamente e culturalmente e elas não percebem isso”.
Foi o que disse o tenente-coronel da PM de São Paulo, Evanilson Corrêa de Souza. Aos 50 anos, ele foi encarregado de rever o manual de Direitos Humanos da corporação e dar sua “contribuição para a desestruturação do racismo estrutural”.
“É importante mostrar para as pessoas que o racismo existe, que não é exagero, não é só um costume, uma brincadeira, um jeito. Porque é cultural e tradicional essa forma de discriminação. É um racismo estrutural da sociedade que se arrasta até os dias de hoje”, continuou Evanilson.
Vítima de racismo rotineiramente, o coronel lembra que frases racistas são proferidas até pela família da esposa, com falas como “um negão desses não pode ser comandante”.
O que muda
A ideia, segundo o coronel que comanda o 11º Batalhão da Polícia Militar na área dos Jardins/Consolação, região central São Paulo, é fazer com que os policiais paulistas reflitam e se conscientizem de que o racismo está presente no dia a dia nas ruas e identifiquem atos discriminatórios próprios e de colegas que possam ser corrigidos.
“Não será uma caça às bruxas, mas não vamos mais tolerar discriminações de nenhuma forma”, afirma o coronel.
A revisão do manual da PM, que é de 1998, começou em 2014, quando surgiram algumas ideias sobre a necessidade de aperfeiçoamento das premissas da corporação em respeito à diversidade cultural e religiosa, e termina agora, num ano marcado por ocorrências polêmicas envolvendo atos racistas no Brasil e no mundo.
Estatísticas
A taxa de homicídios de negros no Brasil saltou de 34 para 37,8 por 100 mil habitantes entre 2008 e 2018.
Isso representa aumento de 11,5% no período, de acordo com o Atlas da Violência 2020.
Já os assassinatos entre os não negros no mesmo comparativo registraram uma diminuição de 12,9% (de uma taxa de 15,9 para 13,9 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes).
O relatório mostra que, em 2018, os negros representaram 75,7% das vítimas de todos os homicídios.
Quando se fala das vítimas dos policiais, o percentual de negros é um pouco maior: 79,1% em 2019, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
A proporção de policiais negros assassinados no ano passado também é maior do que a de brancos: 65,1%.
Segundo o coronel, a população precisa perceber que a discriminação ainda está muito presente nos nossos dias.
“Nós temos, sim, uma sociedade que traz uma bagagem de diferenciação total do negro, resultado de mais de 350 anos de escravidão e da forma como o negro sempre foi subjugado. Nas novelas, por exemplo, se via negros em posições inferiores, com profissões ditas inferiores. Tudo isso foi moldando o pensamento social. Isso é o racismo estrutural, uma forma perversa de discriminação. Porque você já tem uma leitura de que o negro faz parte de um universo inferior e de violência”, conclui o coronel.
“Dizer para uma pessoa que ela tem um gesto racista é muito grave, tem que tomar cuidado. Porque as pessoas éticas não querem ser racistas. Então é preciso cuidado na forma como se mostra isso”.
Cartilha
A ideia da revisão do manual de Direitos Humanos, que será distribuído e ensinado nas escolas da PM, é “contribuir com esse processo para mudar tudo isso”, diz Evanilson Souza.
Além do manual, será confeccionada uma cartilha de bolso ilustrada, dando dicas mais práticas sobre como os policiais devem agir nas abordagens nas ruas.
“A sociedade precisa pensar de novo no preconceito contra o negro, porque isso gera uma cultura histórica de estigmatização por parte do próprio negro, que se vê já inferior, se acha, muitas vezes, incapacitado historicamente para certos cargos ou atos. É ruim e difícil dizer que existe racismo, que existe uma sociedade racista, porque você está acusando seus colegas e amigos de racismo. Mas o racismo existe, sim”, conclui o coronel.
A nova versão, segundo Souza, deve ficar pronta no 1º semestre de 2021.
Com informações do G1

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