Peças perdidas de Bach são apresentadas pela primeira vez em 300 anos: joias da música

Duas peças para órgão atribuídas a Johann Sebastian Bach, dadas como perdidas por mais de três séculos, voltaram a ser ouvidas na Alemanha. As obras foram apresentadas dentro da Igreja de St. Thomas, em Leipzig, onde o compositor está enterrado, em um momento considerado histórico para pesquisadores e músicos.
As peças, escritas quando Bach ainda era muito jovem e dava aulas de música, ficaram guardadas por mais de 300 anos sem que ninguém soubesse da autoria verdadeira. Só recentemente especialistas conseguiram confirmar que os manuscritos realmente pertenciam ao compositor.
A revelação encerra décadas de investigação e abre uma nova janela para entender a fase inicial da carreira de Bach. O trabalho cuidadoso de pesquisa permitiu montar um “quebra-cabeça” que finalmente trouxe essas obras de volta ao repertório mundial.
As obras encontradas
As peças apresentadas pela primeira vez em três séculos foram identificadas como Chaconne em Ré menor BWV 1178 e Chaconne em Sol menor BWV 1179. Ambas foram adicionadas oficialmente ao catálogo de obras de Bach e tocadas diante do público na mesma igreja onde ele atuou como organista e diretor musical.
Os manuscritos estavam na Royal Library of Belgium desde 1992, quando foram descobertos de forma anônima e sem data. A falta de informações claras dificultou a confirmação imediata da autoria, que só foi possível com o avanço das pesquisas nos últimos anos.
A descoberta foi celebrada por especialistas em música barroca e por organistas, que consideram as obras importantes para compreender os primeiros passos criativos de Bach.
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Como as peças foram autenticadas
O processo de autenticação levou mais de três décadas. Peter Wollny, diretor do Bach Archive em Leipzig, reuniu cerca de 20 indícios que conectavam os manuscritos ao compositor. O desafio maior foi identificar quem havia copiado a partitura original, já que a caligrafia não correspondia aos escribas mais conhecidos da época.
A virada ocorreu quando o pesquisador Bernd Koska encontrou uma carta de 1729 escrita por um organista pouco conhecido, chamado Salomon Günther John. A letra era muito semelhante à dos manuscritos encontrados na biblioteca da Bélgica.
Mais tarde, outro documento antigo, também escrito por John, confirmou a coincidência. Com isso, os pesquisadores concluíram que John, que alegava ter sido aluno de Bach em Arnstadt, registrou as peças por volta de 1705 sob orientação direta do compositor.
O valor musical das chaconnes
As obras recém-reveladas seguem a forma musical chamada chaconne, construída com variações sobre uma linha de baixo repetida. Especialistas afirmam que essas composições mostram um estilo ainda inicial, mas já marcado pela criatividade que Bach apresentaria mais tarde.
Wollny afirmou que as peças são “individuais” e “complexas”, trazendo recursos que só apareciam nas composições do jovem Bach, como o uso de uma fuga para unir um tema central à estrutura maior da música.
A pianista canadense Angela Hewitt, referência mundial na obra de Bach, destacou que as peças têm “imaginação e grandeza”, características encontradas na fase juvenil do compositor. Para ela, os novos trabalhos devem enriquecer o repertório de organistas no mundo todo.
Reação do mundo da música
A apresentação inédita atraiu atenção internacional. O ministro da Cultura da Alemanha, Wolfram Weimer, classificou a descoberta como um “grande momento para a música”, afirmando que pesquisas desse tipo revelam “algo próximo da magia”.
O organista holandês Ton Koopman, responsável por tocar as obras em público pela primeira vez, afirmou que espera ver as composições incluídas com frequência em programas de concerto.

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