Negro que libertou 500 escravos é reconhecido após 100 anos

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Foto: WikimediaCommons
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Um reconhecimento, uma homenagem tardia, mas justa!

133 anos após sua morte, um abolicionista – que mesmo sem ser advogado libertou mais de 500 escravos – ganhou o título de advogado da Ordem dos Advogados do Brasil.

O negro liberto Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830-1882) foi reconhecido pela OAB nesta terça-feira (3), em cerimônia na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Ele era um rábula, aquele que exerce a advocacia mesmo sem ser advogado.

“No atual modelo da advocacia brasileira, é a primeira vez que tal homenagem é conferida”, afirma o presidente nacional da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coelho.

“Já era hora de ele ter esse reconhecimento oficial”, avalia o advogado Silvio Luiz de Almeida, professor da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie e presidente do Instituto Luiz Gama (ILG).

“Além de ter sido um homem importante na questão do abolicionismo, foi grande jurista e advogado de teses brilhantes.”

“Embora não fosse advogado, Gama era um grande defensor da abolição e sua atuação como rábula livrou inúmeras pessoas dos grilhões escravistas”, pontua o presidente da OAB.

Na cerimônia, Luiz Gama foi representado por um tataraneto, um de seus 20 e tantos descendentes vivos, o engenheiro e empresário Benemar França, 68.

“Tomei contato com a biografia desse meu antepassado quando estava no 2º ano ginasial e um professor de história pediu que pesquisássemos, cada um, sobre as nossas famílias, a nossa genealogia”, conta.

“O que descobri encheu-me de orgulho.” Além da condecoração póstuma, o evento Luiz Gama: Ideias e Legado do Líder Abolicionista prevê dois dias de palestras e debates no Mackenzie.

Autor da biografia “Luiz Gama: O Advogado dos Escravos”, publicada pela editora Lettera.doc em 2010, o advogado Nelson Câmara acredita que a iniciativa da OAB é correta “embora serôdia”, ou seja, tardia. “Era um sujeito de grande luminosidade”, afirma Câmara.

História

Nascido em Salvador, filho de um português com uma escrava liberta, foi vendido como escravo pelo próprio pai quando tinha dez anos.

Alforriado sete anos mais tarde, estudou direito como autodidata e passou a exercer a função, defendendo escravos. Também foi ativista político, poeta e jornalista.

Ele bem que tentou cursar direito no largo São Francisco. “Mas a aristocracia cafeeira da época não permitiu, porque ele era negro”, atesta Câmara.

“Mesmo assim, era assíduo frequentador da biblioteca de lá.”

No prefácio do livro, o jurista Miguel Reale Júnior, ex-ministro da Justiça, afirma que Gama foi “o negro mais importante do século 19”.

Com informações do Estadão