New York Times faz homenagem a Glória Maria: “Quebrou barreiras na TV”

O jornal norte-americano The New York Times (NYT), um dos mais importantes do mundo, fez uma homenagem lindíssima à jornalista Glória Maria, que morreu no último dia 2. No artigo, o jornal a descreve como aquela que “quebrou barreiras” e foi consagrada como a primeira repórter preta da televisão brasileira.
No texto de pura sensibilidade e com muitos detalhes interessantes, a vida da jornalista é esmiuçada. “Considerada a primeira telejornalista preta do Brasil, que derrubou barreiras para as mulheres negras na televisão em uma época em que as cadeiras de âncora do país eram ocupadas principalmente por homens brancos.”
O artigo no NYT recorda que, de acordo com a TV Globo, Glória Maria havia conseguido vencer o câncer. Mas este foi a causa da morte dela porque houve metástase e atingiu o cérebro. O texto brinca com o fato de a jornalista ter passado a vida escondendo a idade e, com a morte, o “segredo” ser revelado: 73 anos.
História
No texto, o jornal destaca que Glória Maria passou mais de cinco décadas na frente das câmeras da TV Globo, tornando-se ídolo negro em um país cuja história é marcada por “profundo preconceito racial”.
O artigo no NYT lembra que Glória Maria veio de família modesta, de bairro proletário da Zona Norte do Rio de Janeiro, filha de pai alfaiate e mãe dona de casa. Mas nada a impediu de desbravar o mundo.
A jornalista viajou por mais de 100 países, cobrindo a Guerra das Malvinas em 1982, a crise dos reféns da embaixada japonesa em 1996 no Peru, duas Copas do Mundo e duas Olimpíadas.
“Eu era muito pobre”, disse ela a um programa de televisão brasileiro em 2019. “Não tinha dinheiro para ver o mundo. Comecei viajando com a TV Globo e aí fiz do mundo meu playground.”
Conhecida por sua capacidade de fazer perguntas difíceis com talento, ela entrevistou celebridades, como Michael Jackson, Elton John, Nicole Kidman e Madonna.
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Carisma
O artigo no NYT destaca ainda o carisma de Glória Maria nas palavras do melhor amigo dela. “Ela tinha um carisma absurdo”, disse Bruno Astuto. “Não havia uma pessoa que não gostasse dela.”
Porém, de acordo com o jornal, o que realmente a diferenciava era o espírito aventureiro. Ela saltou de bungee jump do ponto mais alto do mundo em Macau, caminhou no Himalaia e fumou maconha antes de andar de montanha-russa enquanto visitava uma comunidade rastafari na Jamaica.
“Sou uma pessoa movida pela curiosidade e pelo medo”, disse ela em uma entrevista em 2018. “Se eu parar para pensar racionalmente, não faço nada. Tenho que abrir mão da racionalidade para seguir em frente, deixar a curiosidade e o medo tomarem conta, e aí eu faço qualquer coisa.”
Racismo
Ainda assim, Glória Maria foi frequentemente vítima de racismo, segundo o jornal. Na década de 1970, ela apresentou uma queixa policial famosa quando um gerente a impediu de entrar em um hotel de luxo.
Décadas depois, quando ela coapresentava o “Fantástico”, o primeiro programa do gênero no Brasil, os telespectadores ligavam exigindo que ela fosse substituída por um apresentador branco.
“Ser o primeiro é lindo, é poderoso”, disse Astuto. “Mas ela caminhou por uma estrada muito solitária.”
Usando Glória Maria como nome profissional, estreou nas telas em 1971, relatando o desabamento de um trecho de viaduto que matou 48 pessoas. Em 1977, ela se tornou a primeira jornalista no Brasil a aparecer em uma transmissão colorida ao vivo.
Filhas
Glória Maria se casou com o francês Eric Auguin na década de 1980, mas os dois não tiveram filhos juntos e se divorciaram depois de oito anos. Ela disse que, por muitos anos, não queria constituir família e preferia se dedicar à carreira.
Em 2009, a jornalista adotou duas irmãs órfãs que conheceu enquanto trabalhava como voluntária em um abrigo para crianças.
“Eu nunca tinha pensado em ter filhos até que os vi pela primeira vez e tive certeza de que eram minhas filhas”, disse a jornalista, em um programa de televisão em 2012, referindo-se a Maria Matta da Silva e Laura Matta da Silva, sobrevivem a ela.
Com informações do The New York Times