Casal assaltado por menores resgata vulneráveis com Projeto Surfar

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Crianças do projeto Surfar - Foto: divulgação
Crianças do projeto Surfar - Foto: divulgação

Um casal que sofreu vários assaltos na loja de surfe que tinha resolveu buscar solução e em vez de culpados.

“No quarto assalto, dois menores, duas crianças de no máximo 14 anos, armadas, não hesitaram em atirar no meu marido quando ele reagiu a uma tentativa de abuso contra a minha filha. Logo depois, arrombaram a loja e levaram todo o nosso estoque. Foi uma mudança muito drástica de padrão de vida, porque, da noite para o dia, perdemos tudo. Perdemos o chão”, lembra Gicele, dona da loja.

Juntos, ela e o marido, Gustavo, criaram um projeto para resgatar menores vulneráveis, que estavam sendo levados para o mundo das drogas. A ideia deu certo e já salvou várias crianças e adolescentes nos últimos 20 anos.

O Projeto Surfar é uma entidade beneficente, sem fins lucrativos, que atua em 9 comunidades carentes de Porto Alegre e atende diretamente 270 crianças e adolescentes com atividades culturais, esportivas, educacionais, de saúde e de lazer.

“Perder tudo pode ter sido o único jeito deles encontrarem o propósito de uma vida inteira e, juntos, serem capazes de transformar a vida de centenas de crianças e adolescentes”, afirmam Iara e Eduardo, os Caçadores de Bons Exemplos que estiveram no projeto.

E essa situação se transformou em exemplo de determinação e empatia.

A virada

Depois dos assaltos, eles mudaram-se de bairro e começaram a ter contato com uma realidade muito diferente do que conheciam e decidiram que era hora de intervir na vida dos jovens, antes que se tornassem aqueles que os assaltaram.

Criaram então o Projeto Surfar.

“Já vínhamos fazendo um trabalho social na loja, ensinando adolescentes a fabricarem pranchas de surfe. Então, decidimos estender a iniciativa a adolescentes de 16, 17 anos dessa comunidade. Para nossa surpresa, dentre os que se apresentaram, poucos tinham ensino fundamental e muitos nem eram alfabetizados”, disse.

Quando o projeto começou, chamou atenção da comunidade e atraiu cada vez mais crianças e adolescentes. As meninas começaram a chegar, de 12, 13 anos, grávidas, perdidas.

“Meninos e meninas cuidando dos irmãos menores, que tinham que acompanhá-los nas aulas. Criamos então um braço de educação infantil, para atender os pequenininhos que vinham, em parceria com as escolas da região”, com Gicele.

Depois de ter tudo encaminhado, um acidente: a estrutura que era usada para ensinar as crianças desmoronou e, mais uma vez, eles perderam tudo.

A partir dali, pedir ajuda à comunidade era a única solução. Mesmo recebendo muitos “nãos”, o casal não desistiu. Afinal, eram mais de 80 jovens na responsabilidade dos dois.

Então, eles começaram a receber doações de tijolos e material de construção.

“Hoje brincamos que nosso salão de atividades é uma churrasqueira gigante, porque foi construída com os tijolos de todas as churrasqueiras do parque Harmonia”, conta rindo.

Não é só surfe

A Associação Projeto Surfar modificou a realidade de muitas famílias da região.

Não é só sobre surfe, é também sobre criar uma rede, fortalecer um vínculo, mudar cada dia um pouquinho mais e deixar um legado.

“Mostramos para a própria comunidade a potência, a força que ela tem. Meu sonho é ter um espaço para acolher essas crianças todas. Por mim, não haveria nenhuma criança em abrigos ou nas ruas”, encerra Gicele.

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Menino do projeto Surfar na praia - Foto: divulgação
Menino do projeto Surfar na praia – Foto: divulgação
Prancha que eles fabricam - Foto: divulgação
Prancha que eles fabricam – Foto: divulgação

Por Rinaldo de Oliveira, da redação do SóNotíciaBoa – com Caçadores de Bons Exemplos