Escola faz rifa solidária para continuar oferecendo educação humanizada

A pandemia prejudicou a instituição que luta para não fechar as portas - Foto: arquivo pessoal
A pandemia prejudicou a instituição que luta para não fechar as portas - Foto: arquivo pessoal

Por amor e dedicação para oferecer uma educação humanizada, uma escola em Camaçari, na região metropolitana de Salvador (BA), está contando com a ajuda externa para continuar com as portas abertas. Uma rifa solidária foi criada e os bilhetes podem ser comprados de forma virtual a R$ 25.

Escola não é apenas um espaço físico para ensinar a ler e escrever. Ela também pode ser o resultado de sonhos e inquietações com a realidade de um determinado contexto. É o caso da professora Jamile Tupinambá que, após passar por diferentes instituições de ensino públicas e privadas, se viu frustrada com a forma que a educação era oferecida aos alunos.

“Eu comecei a perceber que a criança sofria do mesmo modo em ambos os contextos. Isso porque o ensino era oferecido só com as crianças presas em uma sala, presas aos livros e aos materiais, sem tempo para aprender brincando”, explica a professora.

Ao perceber que não era apenas uma questão local, mas, sim, social, Jamile quase desistiu de ser professora. A educação era, muitas vezes, oferecida sem olhar para os estudantes enquanto pessoas, com suas individualidades e aguçando pouco a busca divertida pelo conhecimento.

A mudança de visão

Uma pós-graduação surgiu em seu caminho e ao ter contato com a escritora, educadora e jornalista Dora Incontri, na Universidade Livre Pampédia. No curso, Jamile pôde conhecer uma forma diferente de ensino.

“Eu consegui ver um formato de educação diferente. Uma educação democrática, onde o aluno tinha voz, onde era participativo. A escola também tinha uma gestão participativa e plural, onde todas as crenças eram respeitadas… Só que era em uma universidade. Aquilo me abriu os olhos, deu prazer pensar em algo semelhante para o universo infantil. Era possível também fazer igual”, refletiu Jamile.

A Escola Pampédia – Espaço Livre de Educação foi criada, em 2018, com este propósito.  Aproveitando um espaço de um antigo restaurante do seu pai, a educadora investiu em bons materiais de apoio, profissionais competentes e tecnologias diferenciadas do que eram oferecidas pelas escolas da região.

“Toda estrutura da escola é diferenciada, com espaços livres de aprendizagem onde as crianças não ficam presas somente na sala de aula. Investi em materiais franceses e os professores fazem terapia pra poder lidar com suas questões e ensinar bem”, conta.

Referência em educação humanizada

Em pouco tempo, a escola recém-criada se tornou referência na cidade, recebendo diferentes perfis de estudantes.

“Em dois anos, erámos referência em educação humanizada e inclusiva aqui em Camaçari. A gente começou a receber crianças com algumas características específicas, como TDAH, autismo e dificuldades de aprendizagem em geral. Elas começaram a vir para cá porque o ensino é personalizado”, afirma a professora.

A pequena Maria, 6 anos, foi a primeira aluna matriculada na Pampédia. A mãe, Gabriela Marins Carneiro, procurou a escola, na época, por não ter tido uma experiência positiva com uma instituição de ensino anterior. O olhar individualizado com cada aluno e a estrutura da Pampédia chamaram a atenção.

“Família e escola são uma equipe para formação de um ser humano bem orientado na sociedade. A escolha foi pensada com cuidado e não nos decepcionou. Eles cumpriram com o que se propuseram e o que nós levávamos de dúvidas ou pontos divergentes eram ouvidos e negociados. E isso também é incentivado nos alunos, o questionamento de tudo”, avalia Gabriela.

Atualmente, o ensino oferecido pela escola durante a pandemia tem sido, para Gabriela, essencial para aprendizagem de Maria.

“Ela é uma criança extremamente ativa e sociável e ter que ficar ‘presa’ em uma tela pelo período da aula é tedioso. Então, eu não acreditava que minha filha pudesse ler e escrever ainda esse ano, pela dificuldade mesmo do ensino remoto, mas, com todo suporte que tivemos, ela já está com essas habilidades bem desenvolvidas e caminhando junto com a turminha”, comemora a mãe.

Por que uma rifa solidária?

Quando as aulas presenciais foram paralisadas por conta da pandemia de Covid-19, a Pampédia teve um baque de mais de 50% no orçamento.

Como a escola atende grupos iniciais da educação infantil, muitos alunos, por terem até três anos de idade, não se adaptaram ao ensino virtual. Matrículas foram canceladas e ficou difícil manter a qualidade deixar com o orçamento no vermelho.

A rifa solidária, então, surgiu como um dos últimos recursos para ajudar a manter a escola aberta.

O objetivo é arrecadar o valor de R$ 5.000 para auxílio das despesas da instituição. Cada bilhete custa R$ 25 e pode ser adquirido por meio do endereço https://botanarifa.com/unxkzlrg. O sorteio ocorrerá no dia 25 de agosto por meio da Loteria Federal.

O vencedor, ou a vencedora, ganhará três livros da Editora Comenius, são eles: “Pampaedia” e “Labirinto do Coração”, do educador Checo Jan Amos Comenius, e o livro infanto-juvenil “Comenius, o sábio que queria ensinar tudo a todos”. Além disso, há também um quadro e 12 pôsteres da coleção Expressões do Sagrado, da artista Katia Del Giorno.

É um propósito de vida

Apesar das dificuldades intensificadas pela pandemia, a Escola Pampédia procura se manter em pé por acreditar na transformação social por meio de uma pedagogia humanizada.

Jamile encara seu trabalho, não como um negócio, mas como um propósito de vida. “Se fosse negócio, já tinha desistido porque estamos há três anos no vermelho. Qualquer outra empresa já teria fechado. Então, é um ideal mesmo. É uma luta, a minha missão é humanizar a educação e compartilhar esse conhecimento com o maior número de pessoas”, reflete.

Já Gabriela espera que a escola continue funcionando e auxiliando tanto no crescimento de sua filha, quanto dos outros alunos.

“Se a escola fechar será uma grande perda. Eu, como mãe Pampédia, ficarei triste e perdida sem saber onde matricular minha filha para que ela tenha o mesmo suporte. Lá somos todos vistos, alunos e famílias. A Pampédia trouxe uma proposta para nosso município que não existia, e tem (ainda tenho fé) um grande potencial”, torce.

Em outubro, em parceria com o Instituto Saber, Jamile conta que a escola vai oferecer a primeira pós-graduação em Pedagogia Humanizada do país. O curso é legalizado pelo Ministério da Educação e foi criado para formar professores de outras escolas. “A intenção é que esse conhecimento e trabalho não fique preso somente à nossa escola”, diz.

Para o futuro, Jamile segue acreditando na união das pessoas como força de transformação e fortalecimento da educação humanizada.

“Devemos sempre acreditar na união das pessoas pra que a gente consiga ainda trabalhar com educação no Brasil. É muito difícil e desafiador investir em educação aqui. Eu acredito na união de pessoas que realmente se importam com a educação humanizada, mesmo quando não há apoio do poder público. Acredito que a gente pode se unir e mostrar que é possível manter esse sonho vivo”, finalizou.

A pandemia afetou o orçamento da escola, que manteve a qualidade das aulas - Foto: arquivo pessoal
A pandemia afetou o orçamento, mas a escola manteve a qualidade das aulas – Foto: arquivo pessoal
A escola tem como foco o olhar individualizado e humanizado para cada aluno - Foto: arquivo pessoal
A escola tem como foco o olhar individualizado e humanizado para cada aluno – Foto: arquivo pessoal

Fonte: Agência Educa Mais Brasil